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Michale Graves cancela turnê pelo Brasil após protestos ligados a posicionamentos políticos

Texto e fotos: Luck Veloso

A turnê brasileira de Michale Graves, ex-vocalista do Misfits, foi cancelada nesta terça-feira (22), um dia antes do início previsto. O músico faria cinco apresentações entre 23 e 27 de setembro, passando por Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba e São Paulo. A decisão da produtora Caveira Velha aconteceu em meio a protestos de grupos e ativistas antifascistas contra os posicionamentos políticos assumidos pelo cantor nos últimos anos.

Em comunicado, a produtora afirmou que o cancelamento ocorreu “em compromisso com a segurança do público e de toda a equipe de produção”. Os ingressos adquiridos pela internet terão reembolso automático pela plataforma de vendas. Para compras realizadas em pontos físicos, o ressarcimento deverá ser solicitado no próprio local da compra.

 

Michale Graves no Circo Voador em 2019 / Fotos de Luck Veloso

Do horror punk ao cancelamento da turnê

Para quem acompanha a história do punk e do horror punk, Michale Graves está ligado a uma das fases mais conhecidas do Misfits. O cantor esteve à frente da banda entre 1995 e 2000, período que marcou o retorno do grupo aos estúdios e apresentou uma nova geração de fãs a músicas que se tornaram referências daquela formação.

Foi justamente esse repertório que Graves trouxe ao Brasil em 2019. Em 20 de junho daquele ano, ele se apresentou no Circo Voador, no Rio de Janeiro, dentro de uma turnê dedicada aos álbuns American Psycho (1997) e Famous Monsters (1999), executados integralmente.

A passagem pelo Rio fazia parte de uma série de apresentações que também levou Graves a São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. No repertório estavam faixas como “Dig Up Her Bones”, “American Psycho”, “Scream!”, “Saturday Night”, “Helena”, “Dust to Dust” e “Descending Angel”.

Se em 2019 a conversa girava principalmente em torno da música e do legado do Misfits, a nova passagem pelo país acabou colocando no centro da discussão outro aspecto da trajetória do cantor: seus posicionamentos políticos.

 

Michale Graves no Circo Voador em 2019 / Fotos de Luck Veloso

O que provocou os protestos

Em 2020, Graves declarou publicamente sua aproximação com os Proud Boys, grupo político de extrema direita dos Estados Unidos. A organização esteve entre os grupos envolvidos nos acontecimentos de 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio americano durante a certificação da eleição presidencial de 2020. Quatro integrantes da liderança dos Proud Boys foram posteriormente condenados por conspiração sediciosa relacionada aos acontecimentos daquele dia.

Graves esteve em Washington em 6 de janeiro e, posteriormente, apareceu relacionado ao processo judicial envolvendo integrantes do grupo. Em 2023, integrantes dos Proud Boys foram julgados por acusações relacionadas à tentativa de impedir a transferência de poder após a eleição.

O próprio Graves já apresentou uma versão diferente sobre sua relação com o grupo. Em entrevista de 2022, afirmou que sua aproximação tinha caráter ideológico e que pretendia atuar pela não violência e conversar com jovens ligados àquela corrente política.

 

 

Porto Alegre foi o primeiro ponto de tensão

A mobilização contra a turnê ganhou força especialmente em Porto Alegre. A Ação Antifascista Social anunciou que realizaria uma manifestação em frente ao Espaço Marin, onde estava marcado o primeiro show, caso a apresentação fosse mantida.

O grupo classificou a manifestação como um ato contra o racismo e contra a presença de Graves na cidade. Depois da confirmação do cancelamento, a organização publicou nas redes sociais que considerava a decisão uma vitória da mobilização antifascista.

O deputado estadual Leonel Radde também havia se manifestado contra a apresentação e comemorou o cancelamento do show na capital gaúcha.

A pressão, entretanto, não ficou restrita a Porto Alegre. O cancelamento acabou atingindo toda a turnê brasileira.

Uma história que mudou de significado

A situação envolvendo Michale Graves mostra também como a trajetória de um artista pode ganhar novas camadas ao longo do tempo. Para muitos fãs, sua passagem pelo Misfits permanece associada a uma fase importante do horror punk, especialmente pelos dois discos que ajudaram a apresentar a banda a uma nova geração nos anos 1990.

Mas, nos últimos anos, suas posições políticas passaram a ocupar espaço importante na discussão sobre suas apresentações. O músico já enfrentou situações semelhantes fora do Brasil, com cancelamentos e protestos relacionados à sua ligação com os Proud Boys.

No Brasil, a história terminou antes mesmo de começar: os cinco shows previstos para setembro de 2026 foram cancelados, colocando novamente em debate uma questão que há tempos acompanha a música e a cultura pop, até onde a obra de um artista pode ser separada de suas posições e atitudes públicas?

Para o público que esperava rever ao vivo a voz responsável por uma parte importante do repertório dos Misfits dos anos 1990, desta vez não haverá palco.

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